segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Primavera cá dentro, lá fora. Parte III

- São flores. – Disse abrindo os olhos.
- Sim. – Respondeu o coveiro, agora jardineiro.
- São tantas flores… - Disse admirada.
- Tantas quantas campas ali em cima, menina. –
- Mas, porquê? –
- Porquê? Porque sim, oras. Lá por a vida ter terminado para uns, não quer dizer que termine para outros, certo? –
- Sim, mas… -
- Isto foi ideia da minha mulher, - interrompeu, - que seria uma espécie de “justiça divina”. Cada vez há mais pessoas no planeta e para as acomodar, botam abaixo mais umas árvores. Ou botam fogo a tudo! Então, por cada pessoa fora deste planeta, bem, morta, planta-se uma flor. Ou uma árvore. Acredite, a ideia não me agradou de início; arranjar um lugar imaginário debaixo de um cemitério para começar um jardim infinito? Só nos contos de fantasia, menina. Mas 50 anos aqui…tenho de dar a mão à palmatória, está aqui um belo jardim. Ela tinha razão, não?
- Sim, tinha. É belo, nunca vi nada assim, só em filmes.
- É porque jardins destes não existem, ou apenas existiram há muito tempo. Muito, muito tempo.
- Desculpe, a sua mulher está aqui?
- Ali, está a ver aquela casinha?
- Sim, está lá dentro?
- É aquele salgueiro ali perto do casebre.
- Oh… desculpe.. – murmurou de choque e de tristeza.
- Não se preocupe, menina. – acalmou-a com o seu sorriso apaziguador.
- Plantou-o há muito tempo? – Fitou-o com um olhar de curiosidade triste.
- Faz dez anos para o mês que vem.
- Dez anos? E ele está assim tão grande? – perguntou rapidamente admirada com a sua rapidez de crescimento.
- Aqui dentro não existe noção de tempo, da sua passagem, envelhecimento e morte. Essa fica lá em cima e aqui em baixo, as flores. E, árvores. O resto não interessa.
- Espere, cada planta é uma pessoa?
- Exactamente.
- Devem ter morrido muitas pessoas ao longo de 50 anos.
- Imensas. Umas no seu tempo, outras antes do seu tempo e algumas para além do seu tempo. Não interessa quando, todas acabaram aqui.
- E como arranja as sementes? Não devem ser baratas.
- Não, nada mesmo. Cá me arranjei, não? Umas meninas enterram-nas na campa, outras vêm de jardins alheios, mas a maior parte acabam por cair de outras flores. Nada é roubado para além da vida a que lhes corresponde.
- Água? Sol? Como?
- Calma, tenha calma. Vejamos, o que perguntou primeiro? Ah! Nada disso, nada disso. Estas flores vivem da vida dos que cá ficam, da saudade e da força de viver. Isso é todo o Sol que precisam. Água? Interessante, nunca usei disso. Bem, penso que não precisam.
Como? Com muita dedicação e pachorra.
- Suponho que… estejam aqui as minhas sementes?
- Supõe bem, venha daí.
Desceram a pequena declinação em direcção ao casebre, este era pequeno de madeira escura e bastante simples. Tinha três janelas, não havia qualquer sinal de electricidade; passaram por uma janela e para dentro apenas se via uma cama, feita e arranjada. Alguns quadros pendurados, mas com a escuridão era difícil de discernir o que representavam. Em frente à porta estava uma mesa da mesma madeira da casa, escura e em cima desta estava um jornal dobrado e um cinzeiro com cinza. Para aqueles pequenos prazeres da vida. Uma garrafa de vinho resfriava dentro de um cântaro de água para se manter fria para a merenda.
O salgueiro espalhava os seus ramos pelo jardim, caiam em volta da casinha e do jardim com a mesa, como se estivesse a abraçar aquela paz com a sua sombra. Nos seus ramos ouve-se o chilrear dos pássaros que param para ver a nova visitante.
Percorrem um corredor labiríntico de flores de várias cores, o percurso parecia o mesmo que tinha feito no cemitério, mas ao revés de tristeza e saudade, à sua volta via alegria e vida. Não haviam campas de pedra, nem pessoas cinzentas. Haviam troncos e famílias de roedores curiosas. Para além do cheiro maravilhoso. A rapariga tentava respirar mais que a sua conta só para absorver todos aqueles cheiros diferentes, não era todos os dias que tinha aquele privilégio, se calhar nem nunca mais se iria repetir! Pelo menos não nesta vida.
Percorreram cravos, jarros, camélias, girassóis, arbustos de flor e de fruto, urtigas e porque não? Árvores grandes e pequenas que pareciam abrir-se para a comitiva passar. À medida que avançavam, os barulhos dos pássaros mudavam. Eram diferentes, saltitando de ramo em ramo, vinham ver a nova visitante. Parecia uma selva ali!
- Chegámos. Rosas.
- Pretas?
- Não eram as que comprava? Fui o que trouxe.
- Não, eram rosas normais. – E tirou do saco o pacote de sementes. – Rosas vermelhas, das mais comuns que se vendem por ai.
- Não sei mesmo. Garanto-lhe que foi o que trouxe. Pode ficar aqui se quiser. Vou ver se está tudo bem pelo jardim. – Afastou-se um pouco. – Ah, não ande muito por aí, não quero que se perca.
Sozinha, sentou-se de pernas cruzadas frente à roseira. Calada, observava as rosas pretas. Cinco pés, todas elas contadas e todas elas trazidas pela rapariga de cinco sacos diferentes. Porque nasceram assim, pensava. Haverá alguma razão?  Não podiam ser rosas pretas, negras, que mau presságio. Deviam ser rosas vermelhas, cor da paixão e do amor, do sangue e da vida. Normais, como aquele dia no parque e como deveria ter sido aquele dia em que ele não apareceu mais. Deviam ser vermelhas como a rosa que ele ia oferecer. Branca, amarela, ou simplesmente rosa, outra cor que não preta.
- Fiquei à tua espera no parque naquele dia. Tinha chegado um pouco atrasada, o metro parou a meio da linha e depois a confusão para sair, as pessoas a refilar. Cheguei com uma meia hora de atraso, mandei-te várias mensagens sem resposta. Cheguei e mesmo assim não estavas lá. Liguei-te e chamou, chamou, chamou e ninguém atendia.
Passou uma hora, duas e parecia uma mulher abandonada num encontro como nos filmes, as rosas nesse dia pareciam mais vermelhas que da outra vez. Apareceu de novo o senhor a vender rosas aos casais e naquele dia ignorou-me. Fui-me embora ao bater de terceira hora furiosa. Fui para casa e jurei para nunca mais. Chorei de raiva, acalmei-me e fui à net. A tua última mensagem no Facebook tinha sido de manhã, disseste que ias sair. Só podias ir sair para ir ter comigo. Liguei-te de novo, mas a chamada caiu. O número estava desligado. Como podias desligar-me o telemóvel, pensei naquele momento. Deixei-te umas mensagens azedas na tua página pessoal e fui-me deitar.
Ligaram-me estava a cair no meu primeiro sono, pensei que serias tu, era um amigo teu. Perguntou-me se eu sabia alguma coisa de ti e que não ouvia nada de ti desde a manhã. A raiva passou a curiosidade, que passou a preocupação. O teu número ainda estava desligado. A tua página sem actualizações. Voltei a deitar-me.
De manhã a minha mãe entrou-me no quarto a dizer que eu tinha visitas, acordei estremunhada sem entender o que ela tinha dito, vesti um roupão e fui ver o que era. A Soraia, uma amiga minha e vizinha dele estava na minha cozinha e arrastou-me para o quarto mal me viu. Mandou-me sentar na cama e abraçou-me durante algum tempo. Estava confusa e empurrei-a sem força. Pedi-lhe para me explicar o porquê daquele abraço e porque não um todos os dias pela manhã. E foi então que reparei nela, a sua expressão estava lenta e vaga, não olhava para mim e o seu olhar mirava o quarto todo. Cuspindo as palavras, contou-me o que tinha acontecido. Fiquei surda naquele momento, isolada de qualquer sentimento ou emoção. Não sentia nada de nada. Sentia-me a sonhar ainda, um sonho que se transformara em pesadelo.
De novo o abraço e caí na realidade. Tinhas morrido naquele início de tarde; sais-te de casa e foste à florista do teu bairro comprar rosas e à saída foste colhido por um condutor embriagado. Corri para a casa de banho vomitar, estava agoniada e via tudo branco. A cabeça latejava-me e cada pontada de dor dava-me para vomitar de novo. A tua imagem no chão com um ramo de rosas aparecia-me à frente da vista como uma foto repetida. Rosas vermelhas, do teu sangue.
Sinto um nó horrível na garganta, sinto uma culpa enorme e uma angústia. Revolto-me contra mim mesma. Se eu tivesse aceitado a rosa no outro dia, se me tivesses dado apenas uma, ainda estarias vivo. Não terias a necessidade de atravessar a praça, não entrarias na florista e não sairias daquele lado para ser colhido pelo carro. Seguirias da tua casa pelo passeio e chegarias a horas ao parque. Apanharias a seca de meia hora, refilavas comigo, rias-te da  minha história, tínhamos conversado e, e, sei lá! E agora não estás!
Agora sinto a tua falta, sinto a falta das nossas conversas e sinto falta da rosa que nunca me ofereceste… E cada dia que não te tenho aqui, odeio-me por ter sido egoísta e pensado só em mim. Era apenas uma rosa… E agora não estás aqui para ma dar.
E quando na minha mente decidi plantar-te uma rosa na campa, foi para a colher para mim. E nem isso consigo. Senti, quando não a via, que me estavas a punir, que me responsavas pela tua morte.
Não sei o que fazer mais, queria-te aqui, queria que me desses uma rosa vermelha.
Descruzou as pernas e ajoelhou-se perante as rosa negras, agarrou numa enquanto terminava a confissão e encostou-a à face. Esfregou-se lentamente na rosa besuntando-se na sua suavidade e cheiro. Uma lágrima fugiu-lhe, não a conseguiu aguentar mais. A lágrima perdeu-se no caminho no contacto com a rosa, perdeu-se no meio das pétalas e lá ficou. Uma pequena corrente de lágrimas escorria para a rosa. Pingava, gota a gota caia na rosa. Afastou a cara ainda a chorar, soluçava e fungava, enquanto as lágrimas caiam humedecendo o solo. Esfregou os olhos, limpou o ranho à camisa verde, manchando-a. E  nesse preciso instante as rosas eram vermelhas.
- Lágrimas. Afinal é isso…  - Sussurrou furtivamente o jardineiro acabado de chegar. A rapariga murmurou algo imperceptível e este prosseguiu. - Ele nunca a culpou de nada, menina. Como poderia? Ele gostava muito de si. Não sei se era amor, nunca falei com o rapaz, nem em vida, nem em morte. Mas o que ele sentia por si era muito forte.
- Mas como é que… porque é que as rosas…? Vermelhas?!
-Isso não sei lhe responder, são aqueles mistérios que ficam melhores continuando misteriosos. Porque é que as flores abrem de manhã? Porque é que as folhas caem? Porque é que os girassóis seguem o sol? Natureza. Coisa bela, não? Não nos fica bem andar aí a indagar sobre os seus mistérios, porquê saber como é que a flor se abre ao sol, se podemos admirá-la todas as manhãs? Há coisas que simplesmente são assim. Simples, e mágico.
- Isso não fez sentido nenhum. As rosas eram pretas, agora..
- São vermelhas. – interrompeu. - Quem saberá? Eu não sei. Simplesmente são. Não são giras?
- São maravilhosas.
- São vermelhas, como as que queria, certo?
- Como as que ele queria-me dar.
- Pronto, tome. – E arrancou uma rosa, estendendo-a à rapariga. – Leve-a, coloque-a num livro a marcar o passado, ponha-a num jarro, use-a no cabelo, dê a alguém. É livre, está viva, floresça como a rosa e seja bela nesse grande jardim.
- Obrigado. Acabei de plantar a semente de hoje, espero que nasça uma rosa vermelha.
- Não se preocupe.  Será da cor que quiser, basta querer. Basta sonhar.
- Alguma vez poderei regressar aqui?
- Mais tarde ou mais cedo irá regressar aqui; espero é que seja mais tarde. Compreende.
- Quer dizer que só voltarei a este jardim quando morrer?
- Exacto. Tendo em conta que nada disto existe, muita sorte teve a menina. – Riu-se bonacheironamente.
- Mas nessa altura já o senhor cá não está.
- Certo, estarei ali atrás. Num pessegueiro.
- Um pessegueiro?
- Um pessegueiro. Não há nada melhor que um pêssego fresquinho. Docinho. Mole por fora, mas duro por dentro. Forte. Para além dos pêssegos, posso também servir de sombra  a outros.
- E quem o vai plantar?
- Tudo tratado. Tudo tratado.
- Tudo tratado, nem pergunto.
- Não vale a pena, não vale a pena. Vamos sair?
Retomando o mesmo caminho, dirigiram-se à saída. Os barulhos de animais desapareceram por completo e as cores iam-se esbatendo no nada atrás dela. À medida que andavam, parecia que se apagavam luzes atrás. Uma a uma. Passaram pela casa de novo, o jornal aberto na mesa e ao lado estava um copo de vinho a meio, uma cesta de pêssegos terminava a decoração.
 Entraram pelo buraco e pararam ali. O jardineiro, agora guia e lá fora coveiro entregou-lhe a lanterna e apontou.
- Sabe o caminho. Sempre em frente. Cuidado para não tropeçar.
A rapariga segui caminho sempre com a mão na parede para se guiar, a lanterna apontava para o chão e a rosa teve de ser levada na boca. “Hey”, chamou o coveiro da porta. Encostou-a e espreito para o túnel.
- Ela adorava pêssegos! E eu, bem, era um valente chorão. E tu? O que és tu? – E fechou a porta. Escuro.

                                                                                              *

- Rosa. Rosa! Acorda que já estás atrasada para sair, sempre a mesma coisa… Ó Rosa!
E a Rosa acordou, e na mesa ao lado o despertador batia as oito horas. Mesmo ao lado do relógio, uma rosa estava emoldurada e conversada para sempre, ao lado estava um quadro com um salgueiro representado. Uma casa e uma pequena mesa, ambos de madeira completavam a cena, em cima estava um copo de vinho meio cheio junto a uma cesta de pêssegos.
A rapariga levantou-se, olhou para a rosa com toda a normalidade do tempo e foi para a casa de banho fazer as abluções matinais.
Terá sido tudo um sonho? Teria aquilo realmente acontecido? E se sim, como é que tudo aconteceu?
Simples, acontecendo.  Não há regra nenhuma para os sonhos não se realizarem, certo? E antes que me esqueça, a rosa era vermelha.

Fim?

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Primavera cá dentro, lá fora. Parte II


Apanhei-te. Então é por isso que andas a plantar rosas.
- Ah! Desculpe! Não sabia que estava aqui alguém. – Disse um pouco embaraçada e ao mesmo tempo assustada com a aparição repentina do coveiro. – Vou já sair. – desculpava-se enquanto arrumava as coisas.
- Calma, calma. – Apaziguo-a com um sorriso. – Estava a reinar consigo menina. Deixe-se estar, deixe-se estar. – Apaziguou o coveiro algo embaraçado. - Geralmente ninguém repara que aqui estou, aqui dentro, entre os seus mortos, ignoram-me na sua dor. Alguns têm inveja de mim, inveja por uma pessoa como eu ainda estar viva, ter o último contacto com os seus filhos, pais, irmãos, amantes. Outros, nojo por mexer em mortos. Eu cá não são desses que andam a fazer coisas esquisitas com os defuntos, mas não me posso queixar. Então é você que anda a plantar as roseiras, o trabalho que me anda a dar.
- Trabalho?
- Sim, trabalho, menina. Não me pagam para ser jardineiro! não aqui, pelo menos…
- Mas jardineiro do quê? Das flores de plástico? Não estou a perceber.
- Claro que não. Nunca tive muito jeito com as palavra, o que queria dizer era: As suas roseiras estão a dar-me trabalho. – Explicou-se melhor.
- Como? Sempre que cá venho, não vejo roseira nenhuma! A terra continua igual, um pouco virada, mas nada cresceu.
- Se eu deixasse as sementes crescer iria me dar cabo da vida! Já viu um cemitério coberto de flores, verdadeiras, está a ver? Ainda por cima as roseiras que se enfiam para todo o sítio. Imagine as campas cobertas de rosas e espinhos. As pessoas não iriam gostar nada. A vida já é má como está, se fizessem queixa de mim, iria eu para o olho da rua. E com um cemitério cheia de flores, até os mortos sairiam daqui a dançar.
A rapariga continuava-o a mirar com uma clara confusão estampada - Então, cresceram?
- Vá, venha daí, se não se importar.
O coveiro pegou na sua pá e seguiu em frente por entre as campas, a rapariga, ainda confusa, apanhou o seu saco e olhando em redor, seguiu atrás. Iam passando várias campas e jazigos familiares, os nomes algo gastos pelo tempo eram ilegíveis, os familiares dos defuntos sabiam-nas de cor por hábito e por mnemónicas do tempo. Por todo o cemitério não se via nenhuma flor verdadeira, apenas flores de plástico compradas nas lojas dos chineses. Velas, restavam apenas os recipientes com cera derretida e a intenção.
- Onde vamos? – Perguntou.
- Já vai ver. Pode parecer um pouco estranho estar-lhe a levar para um sítio escondido do cemitério, mas a menina pode ficar descansada.
- Eu não disse nada.
- Eu sei, mas já se sabe como são as pessoas hoje em dia, por causa da televisão suspeitam de tudo. Até do próprio vizinho! E até concordo, fazem muito bem! Há gente reles por essas ruas e todo o cuidado é pouco. Faz bem ter cuidado, lembre-se disso, este cemitério está mais cheio de pessoas boas, que de más…
- Obrigado. Eu sei defender-me.
-Ainda bem, mas todo o cuidado é pouco. Estamos quase a chegar.
O coveiro dirigiu a rapariga para o fundo do cemitério, afastando-se das campas cinzentas, podres do tempo. Olhou para trás, tinha percorrido um longo caminho, mas não viu campas, viu pessoas. Tristes, murchas, cinzentas, podres do tempo.
Só havia mais um jazigo. O coveiro parou diante da porta e puxou do seu cinto um molho de chaves, passou uma, duas, três chaves e experimentou a quarta na fechadura. Não deu e repetiu o mesmo processo, mas a começar da outra ponta. Dentro da fechadura, rodou para o lado direito e ouviu-se um click, retirou a chave e rodou a maçaneta. Apenas uma nesga tinha sido aberta e de dentro saiu uma fragrância familiar.
- Hum.
- Disse algo menina?
- Não, não. Foi uma impressão que tive.
- ‘Tábem, deixe-me só… - O coveiro puxou com alguma dificuldade a porta até caberem os dois. - siga-me – disse.
- Mas para aqui dentro? Este jazigo é minúsculo!
O coveiro já lá dentro, apalpou o bolso do casaco à procura de algo, tirou uma lanterna e acendeu-a. – Segura aqui, se faz favor. – dando a lanterna à rapariga. Apalpou o cinto, verificou as chaves e espreitou para a rua. – Ninguém. – E encostou a porta…
Com a lanterna ainda na mão, deu uma volta completa iluminando o jazigo, no chão havia um alçapão trancado.
- A sério, percebo se não quiser continuar…
- Não, - Interrompeu – Agora quero ver onde vamos.
- Aponte pr’aqui a luz, se faz favor. O coveiro agachou-se no alçapão e destrancou-o, puxou a tampa para cima e agora o cheiro era mais forte. Inspirou e sorriu. Desceu por umas escaditas que apenas eram vistas com a luz da lanterna, seria uma queda feia se tropeçassem. A rapariga franziu o nariz e cheirou o ar, era tão familiar, mas não conseguia adivinhar naquele momento o que era.
À frente o coveiro ia assobiando e chocalhando as suas chaves para acompanhar a música, a rapariga ia com a mão na parede para se apoiar. Não havia luz ao fundo do túnel, mas um cheiro forte, mas não incomodativo. Continuaram uns cinco minutos até verem claridade. Apagou a lanterna e devolveu-a ao coveiro.
Este parou mesmo à entrada da porta, obstruindo a vista à rapariga. Com as mãos nas cinturas, inspirou fundo e sorriu para ela.
- Ande cá ver, ande!
Sem obstáculos no seu caminho, pode agora ver o que lhe estava a diante. Era enorme, tão vasto e perdia-se no olhar. O cheiro estava explicado, por isso é que lhe era familiar, era um perfume, não daqueles sintéticos, mas natural. Surtia um efeito de paz nela, de tranquilidade.
Eram imensas, de vários tamanhos, feitios e cores.  As cores encadeavam-na.
Fechou os olhos, inspirou e expirou como nunca tinha feito na cidade.
- São flores. – Disse abrindo os olhos.
- Sim. – Respondeu o coveiro, agora jardineiro.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Primavera cá dentro, lá fora. Parte I


- Olha o que eu te trouxe. Consegues adivinhar? Sim, mais uma semente. As que tenho plantado não pegaram, portanto vou tentar algo diferente, trouxe um aditivo para experimentar.  A ver se cresce agora.
As sementes não pegam, é por causa da terra? Tento sempre revirar a terra, mas não encontro a semente. É estranho, como se alguém andasse a roubar sementes. Eu sei que roubam flores e estátuas de cemitérios, mas sementes? Com tanta flor de plástico por aqui, roubar uma semente é mais original, mas é roubar uma vida… Anyway, é estranho. Olha, se não resultar, das duas uma, ou levas uma rosa de plástico, ou, ou trago um pé já com raiz e pimba, espeto aqui!
É tudo tão aborrecido e falso nos cemitérios, flores de plástico, estas estátuas e mensagens. Distância forçada e um silêncio fingido para que os de fora não vos possam ouvir a cochichar.
O que será que fazem quando não está ninguém por perto? Deve ser como num filme de terror, saem das campas, e atacam as pessoas? Ou se calhar cantam e dançam pela noite de fora, gostava de ver isso…
Desculpa, mas não me consigo calar… É que, não tenho ninguém com quem falar. Desde que te foste, que me fui embora, tenho-me sentido tão só. Então, então encho e vou acumulando tanta coisa, tanta parvoíce que venho aqui chatear-te! E aos teus vizinhos. Eu tenho amigos e o pessoal da faculdade, mas não é a mesma coisa. Preciso daquela tua dose de parvoíce! E de inteligência, mas essa era rara. Estou a brincar!
É que… agora tenho de dizer merda pelos dois! E não é fácil competir contigo, mas lá chegarei!
Que contas desde a última vez que cá estive? O coveiro tem-te tratado bem? Regado a tua terra? E os teus pais têm vindo aqui? Aposto que o teu pai vem quando lhe apetece…
Hum? Nada…
Aqui jaz José António. Como anda o José? É verdade, há tantas Marias no céu como se costuma dizer? E lá continuo eu. Bem, deixa-me cá plantar isto antes que apareça o coveiro. –
Olhou à sua volta à procura de alguém, mas estava sozinha, ajoelhou-se e tirou do seu saco um pacote de sementes baratas, provavelmente compradas no mercado da cidade a uma tuta e meia, tirou também o suplemento e uma pequena garrafa de água. Olhou de novo em seu redor, parecia ter ouvido algo, mas ainda sem ninguém por perto, começou a esburacar um pouco de terra da campa do rapaz que veio visitar.
Levou uma mão à terra e retirou um pouco, a seguir a outra. Gentilmente, sem fazer qualquer ruído foi esburacando uma cova pequena. Uma gota cai na sua mão.
- Porque não cresce nada aqui…? –
Mais uma mão de terra, mais uma gota.
- Tu prometeste… -
Abrira por completo a cova. Embalou com cuidado e com ternura a pequena semente, com o cuidado de não chorar em cima dela. Não queria arriscar que o sal e a saudade das suas lágrimas estragassem a semente. Repetiu em inverso a tarefa de cobrir a semente como se estivesse a despedir de alguém, do seu amigo no velório. Um pequeno beijo nos lábios frios, um toque eterno na face vazia. A tampa do caixão fechada, a cova tapada. A semente e o corpo ambos jaziam ali, e na morte de um, teria de existir vida noutro. Pelo menos ela estava convencida disso, e todos os meses vinha ao cemitério ver se a semente tinha crescido, todas as vezes sem sucesso. Aquele era um lugar de morte, pensava ela, mas não queria aceitar. Ele tinha prometido.
- Lembras-te daquele dia no parque? Não era um parque, mas tinham árvores, uns banquitos e uns velhos a curtir. Ah, um sem abrigo! Não interessa, lembras-te? Estávamos a ver rosas e tu querias dar-me uma, - falava, enquanto lia o rótulo do suplemento aditivo, - e eu a dizer várias vezes que não, não e não. E tu estavas muito chato e perguntavas porquê! Ah, misturar um pouco de água e um pouco disto, vou deitar tudo na tampinha e se for demais, azar, mais forte cresce, não? –
Verteu um pouco de água para a tampa do aditivo e fez o mesmo com o aditivo, - acho que está bom. – Regou o pequeno montinho. – Espera, era para pôr na terra ou em cima da semente? Boa…Bem, onde é que eu ia. Ah! Perguntavas porquê e eu não queria a porcaria da rosa, o que ia fazer com ela? Levava-a para casa? E depois as perguntas? “Ui tens namorado novo? Não me dizias nada? Quem é ele? Tens de o trazer cá a casa.” Hum, não.
Depois passou um monhê a vender rosas, coincidência? Tentaste ficar calado, mas começaste a falar de rosas outra vez. Não me deste nenhuma, não quis, mas prometeste que um dia me irias dar uma. Prometeste, mas não chegaste a cumprir…
Apanhei-te. Então é por isso que andas a plantar rosas.