quinta-feira, 15 de abril de 2010

Primavera cá dentro, lá fora. Parte II


Apanhei-te. Então é por isso que andas a plantar rosas.
- Ah! Desculpe! Não sabia que estava aqui alguém. – Disse um pouco embaraçada e ao mesmo tempo assustada com a aparição repentina do coveiro. – Vou já sair. – desculpava-se enquanto arrumava as coisas.
- Calma, calma. – Apaziguo-a com um sorriso. – Estava a reinar consigo menina. Deixe-se estar, deixe-se estar. – Apaziguou o coveiro algo embaraçado. - Geralmente ninguém repara que aqui estou, aqui dentro, entre os seus mortos, ignoram-me na sua dor. Alguns têm inveja de mim, inveja por uma pessoa como eu ainda estar viva, ter o último contacto com os seus filhos, pais, irmãos, amantes. Outros, nojo por mexer em mortos. Eu cá não são desses que andam a fazer coisas esquisitas com os defuntos, mas não me posso queixar. Então é você que anda a plantar as roseiras, o trabalho que me anda a dar.
- Trabalho?
- Sim, trabalho, menina. Não me pagam para ser jardineiro! não aqui, pelo menos…
- Mas jardineiro do quê? Das flores de plástico? Não estou a perceber.
- Claro que não. Nunca tive muito jeito com as palavra, o que queria dizer era: As suas roseiras estão a dar-me trabalho. – Explicou-se melhor.
- Como? Sempre que cá venho, não vejo roseira nenhuma! A terra continua igual, um pouco virada, mas nada cresceu.
- Se eu deixasse as sementes crescer iria me dar cabo da vida! Já viu um cemitério coberto de flores, verdadeiras, está a ver? Ainda por cima as roseiras que se enfiam para todo o sítio. Imagine as campas cobertas de rosas e espinhos. As pessoas não iriam gostar nada. A vida já é má como está, se fizessem queixa de mim, iria eu para o olho da rua. E com um cemitério cheia de flores, até os mortos sairiam daqui a dançar.
A rapariga continuava-o a mirar com uma clara confusão estampada - Então, cresceram?
- Vá, venha daí, se não se importar.
O coveiro pegou na sua pá e seguiu em frente por entre as campas, a rapariga, ainda confusa, apanhou o seu saco e olhando em redor, seguiu atrás. Iam passando várias campas e jazigos familiares, os nomes algo gastos pelo tempo eram ilegíveis, os familiares dos defuntos sabiam-nas de cor por hábito e por mnemónicas do tempo. Por todo o cemitério não se via nenhuma flor verdadeira, apenas flores de plástico compradas nas lojas dos chineses. Velas, restavam apenas os recipientes com cera derretida e a intenção.
- Onde vamos? – Perguntou.
- Já vai ver. Pode parecer um pouco estranho estar-lhe a levar para um sítio escondido do cemitério, mas a menina pode ficar descansada.
- Eu não disse nada.
- Eu sei, mas já se sabe como são as pessoas hoje em dia, por causa da televisão suspeitam de tudo. Até do próprio vizinho! E até concordo, fazem muito bem! Há gente reles por essas ruas e todo o cuidado é pouco. Faz bem ter cuidado, lembre-se disso, este cemitério está mais cheio de pessoas boas, que de más…
- Obrigado. Eu sei defender-me.
-Ainda bem, mas todo o cuidado é pouco. Estamos quase a chegar.
O coveiro dirigiu a rapariga para o fundo do cemitério, afastando-se das campas cinzentas, podres do tempo. Olhou para trás, tinha percorrido um longo caminho, mas não viu campas, viu pessoas. Tristes, murchas, cinzentas, podres do tempo.
Só havia mais um jazigo. O coveiro parou diante da porta e puxou do seu cinto um molho de chaves, passou uma, duas, três chaves e experimentou a quarta na fechadura. Não deu e repetiu o mesmo processo, mas a começar da outra ponta. Dentro da fechadura, rodou para o lado direito e ouviu-se um click, retirou a chave e rodou a maçaneta. Apenas uma nesga tinha sido aberta e de dentro saiu uma fragrância familiar.
- Hum.
- Disse algo menina?
- Não, não. Foi uma impressão que tive.
- ‘Tábem, deixe-me só… - O coveiro puxou com alguma dificuldade a porta até caberem os dois. - siga-me – disse.
- Mas para aqui dentro? Este jazigo é minúsculo!
O coveiro já lá dentro, apalpou o bolso do casaco à procura de algo, tirou uma lanterna e acendeu-a. – Segura aqui, se faz favor. – dando a lanterna à rapariga. Apalpou o cinto, verificou as chaves e espreitou para a rua. – Ninguém. – E encostou a porta…
Com a lanterna ainda na mão, deu uma volta completa iluminando o jazigo, no chão havia um alçapão trancado.
- A sério, percebo se não quiser continuar…
- Não, - Interrompeu – Agora quero ver onde vamos.
- Aponte pr’aqui a luz, se faz favor. O coveiro agachou-se no alçapão e destrancou-o, puxou a tampa para cima e agora o cheiro era mais forte. Inspirou e sorriu. Desceu por umas escaditas que apenas eram vistas com a luz da lanterna, seria uma queda feia se tropeçassem. A rapariga franziu o nariz e cheirou o ar, era tão familiar, mas não conseguia adivinhar naquele momento o que era.
À frente o coveiro ia assobiando e chocalhando as suas chaves para acompanhar a música, a rapariga ia com a mão na parede para se apoiar. Não havia luz ao fundo do túnel, mas um cheiro forte, mas não incomodativo. Continuaram uns cinco minutos até verem claridade. Apagou a lanterna e devolveu-a ao coveiro.
Este parou mesmo à entrada da porta, obstruindo a vista à rapariga. Com as mãos nas cinturas, inspirou fundo e sorriu para ela.
- Ande cá ver, ande!
Sem obstáculos no seu caminho, pode agora ver o que lhe estava a diante. Era enorme, tão vasto e perdia-se no olhar. O cheiro estava explicado, por isso é que lhe era familiar, era um perfume, não daqueles sintéticos, mas natural. Surtia um efeito de paz nela, de tranquilidade.
Eram imensas, de vários tamanhos, feitios e cores.  As cores encadeavam-na.
Fechou os olhos, inspirou e expirou como nunca tinha feito na cidade.
- São flores. – Disse abrindo os olhos.
- Sim. – Respondeu o coveiro, agora jardineiro.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Primavera cá dentro, lá fora. Parte I


- Olha o que eu te trouxe. Consegues adivinhar? Sim, mais uma semente. As que tenho plantado não pegaram, portanto vou tentar algo diferente, trouxe um aditivo para experimentar.  A ver se cresce agora.
As sementes não pegam, é por causa da terra? Tento sempre revirar a terra, mas não encontro a semente. É estranho, como se alguém andasse a roubar sementes. Eu sei que roubam flores e estátuas de cemitérios, mas sementes? Com tanta flor de plástico por aqui, roubar uma semente é mais original, mas é roubar uma vida… Anyway, é estranho. Olha, se não resultar, das duas uma, ou levas uma rosa de plástico, ou, ou trago um pé já com raiz e pimba, espeto aqui!
É tudo tão aborrecido e falso nos cemitérios, flores de plástico, estas estátuas e mensagens. Distância forçada e um silêncio fingido para que os de fora não vos possam ouvir a cochichar.
O que será que fazem quando não está ninguém por perto? Deve ser como num filme de terror, saem das campas, e atacam as pessoas? Ou se calhar cantam e dançam pela noite de fora, gostava de ver isso…
Desculpa, mas não me consigo calar… É que, não tenho ninguém com quem falar. Desde que te foste, que me fui embora, tenho-me sentido tão só. Então, então encho e vou acumulando tanta coisa, tanta parvoíce que venho aqui chatear-te! E aos teus vizinhos. Eu tenho amigos e o pessoal da faculdade, mas não é a mesma coisa. Preciso daquela tua dose de parvoíce! E de inteligência, mas essa era rara. Estou a brincar!
É que… agora tenho de dizer merda pelos dois! E não é fácil competir contigo, mas lá chegarei!
Que contas desde a última vez que cá estive? O coveiro tem-te tratado bem? Regado a tua terra? E os teus pais têm vindo aqui? Aposto que o teu pai vem quando lhe apetece…
Hum? Nada…
Aqui jaz José António. Como anda o José? É verdade, há tantas Marias no céu como se costuma dizer? E lá continuo eu. Bem, deixa-me cá plantar isto antes que apareça o coveiro. –
Olhou à sua volta à procura de alguém, mas estava sozinha, ajoelhou-se e tirou do seu saco um pacote de sementes baratas, provavelmente compradas no mercado da cidade a uma tuta e meia, tirou também o suplemento e uma pequena garrafa de água. Olhou de novo em seu redor, parecia ter ouvido algo, mas ainda sem ninguém por perto, começou a esburacar um pouco de terra da campa do rapaz que veio visitar.
Levou uma mão à terra e retirou um pouco, a seguir a outra. Gentilmente, sem fazer qualquer ruído foi esburacando uma cova pequena. Uma gota cai na sua mão.
- Porque não cresce nada aqui…? –
Mais uma mão de terra, mais uma gota.
- Tu prometeste… -
Abrira por completo a cova. Embalou com cuidado e com ternura a pequena semente, com o cuidado de não chorar em cima dela. Não queria arriscar que o sal e a saudade das suas lágrimas estragassem a semente. Repetiu em inverso a tarefa de cobrir a semente como se estivesse a despedir de alguém, do seu amigo no velório. Um pequeno beijo nos lábios frios, um toque eterno na face vazia. A tampa do caixão fechada, a cova tapada. A semente e o corpo ambos jaziam ali, e na morte de um, teria de existir vida noutro. Pelo menos ela estava convencida disso, e todos os meses vinha ao cemitério ver se a semente tinha crescido, todas as vezes sem sucesso. Aquele era um lugar de morte, pensava ela, mas não queria aceitar. Ele tinha prometido.
- Lembras-te daquele dia no parque? Não era um parque, mas tinham árvores, uns banquitos e uns velhos a curtir. Ah, um sem abrigo! Não interessa, lembras-te? Estávamos a ver rosas e tu querias dar-me uma, - falava, enquanto lia o rótulo do suplemento aditivo, - e eu a dizer várias vezes que não, não e não. E tu estavas muito chato e perguntavas porquê! Ah, misturar um pouco de água e um pouco disto, vou deitar tudo na tampinha e se for demais, azar, mais forte cresce, não? –
Verteu um pouco de água para a tampa do aditivo e fez o mesmo com o aditivo, - acho que está bom. – Regou o pequeno montinho. – Espera, era para pôr na terra ou em cima da semente? Boa…Bem, onde é que eu ia. Ah! Perguntavas porquê e eu não queria a porcaria da rosa, o que ia fazer com ela? Levava-a para casa? E depois as perguntas? “Ui tens namorado novo? Não me dizias nada? Quem é ele? Tens de o trazer cá a casa.” Hum, não.
Depois passou um monhê a vender rosas, coincidência? Tentaste ficar calado, mas começaste a falar de rosas outra vez. Não me deste nenhuma, não quis, mas prometeste que um dia me irias dar uma. Prometeste, mas não chegaste a cumprir…
Apanhei-te. Então é por isso que andas a plantar rosas.