segunda-feira, 12 de abril de 2010

Primavera cá dentro, lá fora. Parte I


- Olha o que eu te trouxe. Consegues adivinhar? Sim, mais uma semente. As que tenho plantado não pegaram, portanto vou tentar algo diferente, trouxe um aditivo para experimentar.  A ver se cresce agora.
As sementes não pegam, é por causa da terra? Tento sempre revirar a terra, mas não encontro a semente. É estranho, como se alguém andasse a roubar sementes. Eu sei que roubam flores e estátuas de cemitérios, mas sementes? Com tanta flor de plástico por aqui, roubar uma semente é mais original, mas é roubar uma vida… Anyway, é estranho. Olha, se não resultar, das duas uma, ou levas uma rosa de plástico, ou, ou trago um pé já com raiz e pimba, espeto aqui!
É tudo tão aborrecido e falso nos cemitérios, flores de plástico, estas estátuas e mensagens. Distância forçada e um silêncio fingido para que os de fora não vos possam ouvir a cochichar.
O que será que fazem quando não está ninguém por perto? Deve ser como num filme de terror, saem das campas, e atacam as pessoas? Ou se calhar cantam e dançam pela noite de fora, gostava de ver isso…
Desculpa, mas não me consigo calar… É que, não tenho ninguém com quem falar. Desde que te foste, que me fui embora, tenho-me sentido tão só. Então, então encho e vou acumulando tanta coisa, tanta parvoíce que venho aqui chatear-te! E aos teus vizinhos. Eu tenho amigos e o pessoal da faculdade, mas não é a mesma coisa. Preciso daquela tua dose de parvoíce! E de inteligência, mas essa era rara. Estou a brincar!
É que… agora tenho de dizer merda pelos dois! E não é fácil competir contigo, mas lá chegarei!
Que contas desde a última vez que cá estive? O coveiro tem-te tratado bem? Regado a tua terra? E os teus pais têm vindo aqui? Aposto que o teu pai vem quando lhe apetece…
Hum? Nada…
Aqui jaz José António. Como anda o José? É verdade, há tantas Marias no céu como se costuma dizer? E lá continuo eu. Bem, deixa-me cá plantar isto antes que apareça o coveiro. –
Olhou à sua volta à procura de alguém, mas estava sozinha, ajoelhou-se e tirou do seu saco um pacote de sementes baratas, provavelmente compradas no mercado da cidade a uma tuta e meia, tirou também o suplemento e uma pequena garrafa de água. Olhou de novo em seu redor, parecia ter ouvido algo, mas ainda sem ninguém por perto, começou a esburacar um pouco de terra da campa do rapaz que veio visitar.
Levou uma mão à terra e retirou um pouco, a seguir a outra. Gentilmente, sem fazer qualquer ruído foi esburacando uma cova pequena. Uma gota cai na sua mão.
- Porque não cresce nada aqui…? –
Mais uma mão de terra, mais uma gota.
- Tu prometeste… -
Abrira por completo a cova. Embalou com cuidado e com ternura a pequena semente, com o cuidado de não chorar em cima dela. Não queria arriscar que o sal e a saudade das suas lágrimas estragassem a semente. Repetiu em inverso a tarefa de cobrir a semente como se estivesse a despedir de alguém, do seu amigo no velório. Um pequeno beijo nos lábios frios, um toque eterno na face vazia. A tampa do caixão fechada, a cova tapada. A semente e o corpo ambos jaziam ali, e na morte de um, teria de existir vida noutro. Pelo menos ela estava convencida disso, e todos os meses vinha ao cemitério ver se a semente tinha crescido, todas as vezes sem sucesso. Aquele era um lugar de morte, pensava ela, mas não queria aceitar. Ele tinha prometido.
- Lembras-te daquele dia no parque? Não era um parque, mas tinham árvores, uns banquitos e uns velhos a curtir. Ah, um sem abrigo! Não interessa, lembras-te? Estávamos a ver rosas e tu querias dar-me uma, - falava, enquanto lia o rótulo do suplemento aditivo, - e eu a dizer várias vezes que não, não e não. E tu estavas muito chato e perguntavas porquê! Ah, misturar um pouco de água e um pouco disto, vou deitar tudo na tampinha e se for demais, azar, mais forte cresce, não? –
Verteu um pouco de água para a tampa do aditivo e fez o mesmo com o aditivo, - acho que está bom. – Regou o pequeno montinho. – Espera, era para pôr na terra ou em cima da semente? Boa…Bem, onde é que eu ia. Ah! Perguntavas porquê e eu não queria a porcaria da rosa, o que ia fazer com ela? Levava-a para casa? E depois as perguntas? “Ui tens namorado novo? Não me dizias nada? Quem é ele? Tens de o trazer cá a casa.” Hum, não.
Depois passou um monhê a vender rosas, coincidência? Tentaste ficar calado, mas começaste a falar de rosas outra vez. Não me deste nenhuma, não quis, mas prometeste que um dia me irias dar uma. Prometeste, mas não chegaste a cumprir…
Apanhei-te. Então é por isso que andas a plantar rosas.

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