domingo, 26 de abril de 2009

Kaira #2 - Uma cerveja no passado

- Dizem os antigos que cada alma ceifada desta vida é menos um ano de vida para nós…

- Então não tenho muito tempo.

- No entanto, não sei se isso se aplica a monstros.

- Até a pessoa mais pura pode ser um monstro.

- Sempre a arranjar desculpas, ‘né? Mas não deixas de ter razão.

- É.

-Bem lá no fundo a pessoa mais santa consegue ser uma valente cabra. Primitivamente somos umas bestas, uns “monstros”, tanto que os nossos primeiros instintos são maus.

Um bebé quando nasce é inatamente mau. É egoísta e faz de tudo para obter o que quer, as birras ‘tás a ver?

Somos moldados ao longo da vida para dividir o bem, do mal… Mas, podes tirar o leão da selva, mas não tiras a selva do leão! Continuamos a ser maus, mas há sempre aquela vozinha na cabeça que nos diz “Não faças asneiras” ou “Não matarás!” A única vozinha que me diz para me manter a linha é a do senhor polícia, não quero ir dentro outra vez. Apre. O que diz a tua vozinha?

- Para te matar.

- Engraçada.

- Sempre.

- Hei Kaira, estava aqui a pensar…

- Raro. – Interrompeu.

- Sim, sim. Estava aqui a pensar, o que há para além do oceano? Quero dizer, deve haver mais cidades, mais vilas como esta, pessoas como tu e eu, mais monstros. Nunca te despertou a curiosidade?

- …

- Um dia gostava de fazer a peregrinação. Sair daqui e viajar pelo mundo fora, conhecer coisas novas! Depois não me importava de regressar e assentar. Oh, as histórias que iria ter! Agora que a guerra terminou já podemos viajar, mas temos de arranjar um visto e não sei se sou qualificado a um por ter estado preso.

Era um dia de Verão como tantos outros, fazia muito calor e qualquer sombra era um oásis, o céu azul estava limpo de nuvens brancas, tornando impossível esconder-se do sol. As pessoas da aldeia refugiavam-se em casa ao fresco das ventoinhas, refastelados no chão frio semi-nus, outras no café central reuniam-se de tronco nu em volta das pequenas mesas decoradas de garrafas vazias da mais fresca cerveja. As peças de dominó derretiam enquanto esperavam a sua jogada. Ninguém ligava à televisão ou ao exército que marchava num país qualquer distante.

Era a hora da sesta e não se via vivalma, tirando duas pessoas, sentadas à sombra da roupa estendida e abrigados por enormes lençóis brancos. Tudo estava quieto e parado na pequena aldeia, como se esta estivesse abandonada e nenhuma brisa se atrevia a soprar para não perturbar esta imagem fantasmagórica.

- Kaira.

- Sim.

- Se alguma vez saíres da aldeia. Escreves-me?

- Todos os dias.

- Não todos os dias… Tu percebes-te. Quero que me contes tudo! Quero saber se o mundo lá fora corresponde às minhas expectativas.

- Eu é que já estou desiludida.

- Porquê?

- Pelo facto de haver e passo a citar “pessoas como tu e eu”!

- Cabra. Hei onde é que vais?

Kaira levanta-se da relva verde olhando em volta com cara de sono e sacode a erva solta do seu top branco. Trazia uns calções verdes a condizer e vinha descalça como se tivesse a saborear a liberdade do chão de Verão.

- Tenho sede, vamos ao café?

- Não tenho dinheiro, pagas?

- Vá anda lá…

- Hei, cerveja de borla!

- Não faças disto um hábito.

- Vá calma, calma.

A outra pessoa levanta-se também do chão, mas sem qualquer aprumo deixa as ervas nas calças de ganga. Vestia também uma T-Shirt com uma estampa amadora de uma coruja branca a dizer algo engraçado como “Orly”. Ele era muito mais alto que Kaira e sem dúvida mais forte pela sua estatura, mas isso não a intimidava, pois sabia-se de antemão o respeito deste por Kaira, respeito e medo.

Andando atrás dela, seguiram a passo de caracol para o bar da aldeia, mas a viagem parecia de anos, pois suavam e arfavam como se tivessem atravessado algum deserto. Passaram por casas adormecidas e por carripanas abandonadas que ferviam no passeio. Mãos nos bolsos passavam de cenário em cenário e olhavam para as casas do alto da colina, a parte mais rica da aldeia. Eram as casas mais lindas da aldeia, casas de antigos generais e gentes da guerra, habitadas agora por viúvas e por órfãos. Eram gentes orgulhosas pelos feitos dos que morreram na guerra, heróis! Mas tudo tinha um preço, pois eram as casas mais belas da aldeia e eram cobiçadas pela morte.

Os dois suspiraram.

- Prefiro casas pequenas. –

- Também eu, - Responde Kaira – Menos dinheiro para as manter e menos para arrumar.

- Práticas… -

O café aproximava-se e os velhos ainda nas suas mesas, desistiram do jogo e agora olhavam para a televisão com mais interesse.

- Kaira. Field. Boas, o que bebem? – Saúda o pachorrento do homem quase deitado ao balcão.

- Sr. Burrows. O costume. – Saúda de volta Kaira.

- Field, estás a ver aquilo na televisão? – Chama um dos velhos das mesas.

- Ná, o que está a dar?

- São as celebrações de um ano de tréguas. A sua Majestade Simpleton I está a apertar a mão ao Rudolf Feuer.

- Fingido de uma figa… Quanto tempo mais vão demorar até perceberem que isto tudo é uma fachada! Um acto! Ele só pediu tréguas para se tornar amigo daquele simplório! Para aprender os nossos segredos e tácticas, vão ver, quando formos invadidos de novo, depois vão ver…

Kaira dá um gole da sua cerveja acabada de chegar, Fields parece nem reparar na sua, ainda zangado com a televisão. Fresca. O céu a escorregar pela sua garganta.

- Aquele Simpleton é tão otário. – Continua Fields com os olhos pregados na televisão.

- Sua Majestade. – Corrige o empregado.

- Só se for a tua… -

- Finalmente vão estender as linhas de comboio LSD ao resto do continente para fortalecerem as relações – Exclama outro velho.

- Kaira, aqueles é que são os verdadeiros monstros…

-Eu sei. – Termina a sua cerveja, limpa a boca com a parte de trás da mão, olhando para a televisão – Outra…


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